domingo, 31 de outubro de 2010

Receitinha

Café fresco, sabor fazenda.
Panquecas americanas com doce de leite em um prato, salgadas de ricota em outro.
Três xícaras na mesa, uma para o namorado ausente.
Uma conversa franca.
Dois "eu te amo" no meio dela.

Um colo para terminar.
- Deucajude, mamãe.
- Amém.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Eu, Sueli

Há dias em que o fardo pesa.
Cresce.
Se arrasta.

E ainda é preciso descobrir o motivo de carregá-lo.

Queria mesmo é comprar uma passagem.
Vê aí para o lugar mais longe que tiver.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Ladainha

Sentada, olho para frente, abaixo os olhos. Não contemplo.
Ao meu lado, ele, concentrado, balança as pernas que demorarão anos ainda para alcançar o chão. Admira.

Ao nosso redor, as pessoas conversam.
Alguns estranham a dupla que chegou quando tudo estava acabado.
Outros trocam orações. Nós, trocamos olhares.

-Pronto? Rezou?
-Pronto!

E seguimos, pulando os degraus.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Excel

Colocarei tudo lá: ganhos, gastos, planos, decepções.
De minuto a minuto, de centavo em centavo, rendimentos.
Arrependimentos, quem sabe, nunca duvido.

Em dez anos, dez mil. Em vinte... Mais?
Vai depender, ah, vai precisar... Que nessa planilha eu aprenda a navegar.

domingo, 24 de outubro de 2010

Vasto, vasto mundo

No canto da calçada, uma bicicleta encostada.
Ao lado, um pacote com bolachas espalhadas, duas garrafas - de água, quem sabe?
Entre caixas e um cobertor fuleiro, um homem.

Sobre meus ombros, alguém que assistiu à cena de um plano superior, com descrença, com ineditismo. Alguém que em cinco segundos criou várias versões para o ato, até que perguntou por qual motivo o homem dormia na rua. Expliquei, sem entender. Mais: garanti que na rua meu interlocutor só dorme se assim desejar, mas que torço para que isso não aconteça.

E seguimos por uma, duas, três e mais algumas quadras.
Espaço em que ele decidiu que não compraria nada.
Que voltaria feliz para a casa que mais cedo não era linda.

Suspeito que não tenha aceitado as várias versões que dei para a situação e sonhe com algumas delas. Pudera. Também não aceitei minhas versões.
Ainda não consegui entender.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Segundo, o primeiro

Parei de ler o livro, encostei o volume na coxa e bati algumas vezes, buscando na dor física a resposta para a pergunta incômoda. Há alguns minutos ela entrou sorrateira no enredo, mas não pertencia à história. Era uma pergunta minha, só minha, sem resposta.

Olhei pro lado, respirei, um costume meu:
-Quando foi que ouvi um “eu te amo” , aquele, pela primeira vez?

Olhei pro lado mais uma vez. Uma outra. Respirei. Fechei os olhos. Visitei o passado. Revirei as lembranças.
Nada.

Pensei:
-Se não sou capaz de lembrar, não deve ter sido amor.

Realoquei o sorriso na face: prefiro mesmo é ficar com a segunda vez.