quinta-feira, 11 de abril de 2013

domingo, 31 de outubro de 2010

Receitinha

Café fresco, sabor fazenda.
Panquecas americanas com doce de leite em um prato, salgadas de ricota em outro.
Três xícaras na mesa, uma para o namorado ausente.
Uma conversa franca.
Dois "eu te amo" no meio dela.

Um colo para terminar.
- Deucajude, mamãe.
- Amém.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Eu, Sueli

Há dias em que o fardo pesa.
Cresce.
Se arrasta.

E ainda é preciso descobrir o motivo de carregá-lo.

Queria mesmo é comprar uma passagem.
Vê aí para o lugar mais longe que tiver.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Ladainha

Sentada, olho para frente, abaixo os olhos. Não contemplo.
Ao meu lado, ele, concentrado, balança as pernas que demorarão anos ainda para alcançar o chão. Admira.

Ao nosso redor, as pessoas conversam.
Alguns estranham a dupla que chegou quando tudo estava acabado.
Outros trocam orações. Nós, trocamos olhares.

-Pronto? Rezou?
-Pronto!

E seguimos, pulando os degraus.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Excel

Colocarei tudo lá: ganhos, gastos, planos, decepções.
De minuto a minuto, de centavo em centavo, rendimentos.
Arrependimentos, quem sabe, nunca duvido.

Em dez anos, dez mil. Em vinte... Mais?
Vai depender, ah, vai precisar... Que nessa planilha eu aprenda a navegar.

domingo, 24 de outubro de 2010

Vasto, vasto mundo

No canto da calçada, uma bicicleta encostada.
Ao lado, um pacote com bolachas espalhadas, duas garrafas - de água, quem sabe?
Entre caixas e um cobertor fuleiro, um homem.

Sobre meus ombros, alguém que assistiu à cena de um plano superior, com descrença, com ineditismo. Alguém que em cinco segundos criou várias versões para o ato, até que perguntou por qual motivo o homem dormia na rua. Expliquei, sem entender. Mais: garanti que na rua meu interlocutor só dorme se assim desejar, mas que torço para que isso não aconteça.

E seguimos por uma, duas, três e mais algumas quadras.
Espaço em que ele decidiu que não compraria nada.
Que voltaria feliz para a casa que mais cedo não era linda.

Suspeito que não tenha aceitado as várias versões que dei para a situação e sonhe com algumas delas. Pudera. Também não aceitei minhas versões.
Ainda não consegui entender.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Segundo, o primeiro

Parei de ler o livro, encostei o volume na coxa e bati algumas vezes, buscando na dor física a resposta para a pergunta incômoda. Há alguns minutos ela entrou sorrateira no enredo, mas não pertencia à história. Era uma pergunta minha, só minha, sem resposta.

Olhei pro lado, respirei, um costume meu:
-Quando foi que ouvi um “eu te amo” , aquele, pela primeira vez?

Olhei pro lado mais uma vez. Uma outra. Respirei. Fechei os olhos. Visitei o passado. Revirei as lembranças.
Nada.

Pensei:
-Se não sou capaz de lembrar, não deve ter sido amor.

Realoquei o sorriso na face: prefiro mesmo é ficar com a segunda vez.